Um balanço que fomentou novos empreendedores e 500 demitidos, sem pagamento de suas verbas rescisórias

Usando a fé, já foram cometidas barbáries sem número. Só as Cruzadas do mundo ocidental já renderiam muito caldo. O que podemos dizer do uso do PROPÓSITO, dos valores, das causas, como arrebanhadores de mão-de-obra, principalmente intelectual, como artefatos para a disrupção?

Longe de querer falar sobre como a economia determina o social e o político, o caso do tríplice Yellow, Grin e Grow Mobility foi o que me levou a escrever este texto.

As empresas acima que, juntas, chegaram a operar mais de 135 mil bicicletas e patinetes, com mais de mil colaboradores, em 6 países, despontou como unicórnio para lidar com uma questão tão oportuna dos tempos modernos: a mobilidade. Ou melhor, a micromobilidade.

A causa incluiu belas falas como a de transformar não apenas o transporte, mas também os serviços de infraestrutura e estimular a atividade econômica. Gente conectada com o universo da inovação e do impacto social não poderia encontrar campo mais fértil. Unir propósito e ganha-pão.

Mas, o segundo lado da moeda qual é?! Seis meses depois da grande fusão, a pandemia do novo coronavírus tirou a maior parte das pessoas das ruas. As receitas minguaram e mais de 500 pessoas foram demitidas no time brasileiro, tanto da equipe operacional quanto corporativo. Eles não receberam seus encargos trabalhistas — previstos na CLT. Dizem por aí que os parcos gatos-pingados que ficaram na filial brasileira só estão lá para finalizar a operação.

Que a pandemia pegou a todos nós de surpresa é verdade, mas, “startups” tão sabatinadas em pitches e mais pitches, submetidas a rigorosos processos de rodadas de investimentos, sabedoras de modelos de business plan, business intelligence, canvas e tantas outras metodologias e estudos de viabilidade realmente não puderam se ocupar de valores em caixa para o pior? Nem um plano sequer de contenção?

OSCs e ONGs

Na mesma toada, organizações sociais fazem muito no jogo do propósito. O mercado é difícil, a política não ajuda, tem muitas leis… faltam leis e, como diria o ditado: por fora bela viola, por dentro, pão bolerento.

Quantas dessas organizações realmente estão aplicando sua missão não só no discurso para fora, mas dentro, com aqueles que decidiram ser missionários das mesmas causas com fundadores, gestores e conselheiros?

Ao contrário de apontar o dedo, espero que sirva de alerta. Alerta para que esse tipo de coisa não se repita. Seja, ao menos, minimizado. Afinal, o discurso não é que o que importa são as pessoas?

Copo meio cheio

Na correnteza dessa cultura de “startups” descobre-se aquilo que o Fórum Econômico Mundial já apontou nos últimos anos. A importância dos intraempreendedores. Aquelas criaturas que se comportam, dentro do próprio empreendimento, com ideias inovadoras e cheias de brilho. Gente que acreditava que precisava seguir o sonho de alguém por supor não conseguir, ou por não ter tido oportunidade de tirar do papel sua própria ideia.

Para esses, as empresas dos OKRs (Objectives and Key Results) serviram de laboratório de inovação e, às vezes de incubação.

Depois da derrocada, criaram suas próprias empresas. Do grupo mencionado no início, ao menos cinco novas empresas foram criadas: a Pingo, a Espaço Doctor, a 01, a Boomerang e a Quicko.

Ainda assim podemos ir além. Podemos garantir o básico também àqueles que não têm o perfil empreendedor, não é mesmo?! Que o futuro do trabalho não seja sobre PJs, Sócios e CLTs. Que seja sobre um ecossistema respeitável.

Por Ricardo Lauricella, alguém que acredita nas relações de trabalho.